Por conta dos percursos que tomei, tenho agora esta música que me habita:
http://www.youtube.com/watch?v=86ZwqrKlQ6w
Na vida, enquanto não tenho meu psicólogo secreto o tempo inteiro, a ausência é que está sempre por aqui. Mas, ela me conforta. Ao menos, não tenho que temer falar algo que pode, como nas palavras do Renato, ser usado contra mim.
Sou barco à deriva. Acostume-se. Interesses múltiplos, bagunça interior, nenhum senso. Agora, se escolhi que vou mergulhar, mergulha comigo, porra! Sem essa de diamante com pedaço de vidro. Bullshit.
E de um conto que agora termino de ler, fica aqui a minha revelação mais velada:
Volte para casa, Senhora, por favor.
(Apelo, Dalton Trevisan).
E, com um adendo: "Demorou tanto, mas tanto, que encontrou a porta fechada".
Pra sempre.
(Ok, meu código de loucuras: azuis são sussurros, os roxos, barulhos).
Thursday, February 7, 2013
Quem tem medo da Capitu?
Só uma pessoa que conhece pouco a obra do Machado de Assis para achar que Capitu é a sua única mulher com olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Obviamente, acha isso quem só leu Dom Casmurro. No entanto, para quem leu um pouco mais, sabe que sempre há uma mulher muito forte em seus textos. Ok, nem todos. Não era do espírito do Machado a preocupação com os sexos, ele se preocupava, sim, com os desenhos humanos, com os recortes das pessoas, com a construção da personagem. Daí dizer que a galeria de mulheres que ele construiu é exemplar das várias faces e facetas do gênero feminino. Pensemos, para não sair do clichê, na própria Capitu que ganhou vida e que hoje é uma referência para a sedução, para a tentação, além de ser - quase - um sinônimo de manipulação e dissimulação. Desenhada pela voz de Bento, que escreve no momento uma história do passado, perpassada pela caneta bic vermelha apontada diretamente para o coração dilacerado, ciumento e sentindo-se traído, e temos a nossa Desdemona - que seria santa, não fosse o narrador de primeira pessoa - de Otelo do Shakespeare em plena rua do Ouvidor. Capitu, em decorrência de ser narrada e não se narrar, fica sem a voz tão precisa e necessária para a sua defesa, apresenta-se, antes, exposta pelos olhos do amante ferido. Por onde andam, assim, os narradores de terceira pessoa machadianos? Por que a predileção pela primeira pessoa, se não como forma, ainda, de preservar a ambiguidade humana, manter os nossos recônditos esconderijos e, ao mesmo tempo, desvendá-los pela voz do outro que nos analisa? Ah, o Machado...
Tendo que, nessa altura do campeonato e da vida, reler Dom Casmurro, pareceu-me tarefa árdua, mas, foi sempre prazer. Relembrar os detalhes do quadro de Escobar, a pobre esposa, Sancha, tão miúda no olhar narrativo... E também o filho, Ezequiel, que parece, em um só libelo, uma falha, resultado não só de uma mente mentecapta e louca, mas, também, como a própria falha do narrador, que não se vê naquele rosto. Tomando de empréstimo uma ideia que trabalhei há alguns meses a respeito da figura do pai na literatura brasileira - e o desvanecimento desta - como está "fading" podemos dizer que isto já começara lá mesmo na República. No entanto, não como forma do filho virar a mesa contra o pai e, sim, o pai, nesse momento, revendo o seu papel como patriarca. Bentinho, já lá no século XIX, era um exemplo clássico do desmantelamento da sociedade, das mazelas - não físicas e brutais do naturalismo - mas daquelas que, feito erva daninha, vão se alastrando pela alma. Trata-se de um homem que se descobre menos homem, cindido, faltante, sem aquela que ele concebe como a diaba barroca. Ah, os movimentos das escolas....
Mas, este texto nasceu para falar de Guiomar. Outra protagonista machadiana. Não só tive que reler Dom Casmurro como li, também, A mão e a luva. Eu e minhas resistências. Claro que prefiro Esaú e Jacó ou O Alienista. Por isso mesmo que gostei do desafio de ler outra obra de Machado que não as que eu já havia lido. E não é que eu gostei dessa obra? Já havia lido Helena - e não gostado; sobretudo porque li logo depois de Lucíola do Alencar que julgo um livro belíssimo, um dos primeiros livros que me fez chorar, questionar, sair do lugar com desejo de aniquilar a família incompreensiva. Mas, taí, A mão e a luva, com o desenho das personagens, não deixa nada a faltar para outras obras românticas. Aliás, vai além. Ao descrever uma mulher como Guiomar, que ainda moça vê jovens com joias e vestidos passarem - e o segredo mental reside aqui - fazendo planos de chegar a ser como elas, mostra uma manipulação (no texto Machado nomeia de ambição) que parece ser pouco desenhada entre as nossas heróinas românticas. Tão bobinhas, tão frágeis, tão entregues ao ato do amor. Claro que, convenhamos, ainda temos Aurélia de Senhora, outro romance que reli, que também surge com um tom manipulador, mas completamente passional, movida pela raiva de ter sido trocada por um dote, tentando "reformar" o amado. Guiomar, não. É a moça que se senta ao piano, que chama o jovem que a ama, Estevão, de coração mole, dizendo que ele precisa "man up". Aquela que arquiteta, tão perfeitamente, que vai dizer à tia que vai se casar com Jorge, sobrinho da Baronesa, para que a madrinha, ao vê-la desolada ao afirmar isso, simplesmente diga, "Não, Guiomar, vejo que não ama o Jorge. Case-se com o homem que você ama". Guiomar é o não. Ela é tão bem construída que simpatizamos com ela, entendemos os motivos pelos quais ela, finalmente, com seu coração que parece não ser real, não se entrega. Guiomar é o calar. O suspiro, o silêncio. Trabalha ativamente como uma boa menina que sabe o que quer. E, depois, que culpem a Capitu. Que seja posta a espada das incertezas sobre ela. Guiomar, porém, santinha, casa-se casta, linda, e se o faz, é porque tem um homem, Luís Alves, que é, exatamente, seu eu-masculino. O amor, entre eles, chega a ser estranho para o período romântico. Obviamente que a voz narrativa quer dizer que se amam, que se casaram porque são almas parecidas que se buscavam, mas, para mim, leitora do século XXI e que já leu outras obras, o que ressoa é o quanto eles são detalhistas, estrategistas, fazendo daquele amor romântico o jogo que o naturalismo fará questão de desnudar até as entranhas e que o modernismo - salvo alguns casos, como o de Conceição e Vicente de O quinze de Raquel de Queirós - vai mostrar como sendo o interlúdio do troca-troca pós-moderno. Taí um tópico que seria interessante, para fins de entender a evolução da representação do amor e das relações humanas, olhar para determinados pares de personagens em cada período. Se pensarmos em O matador de Patrícia Melo, por exemplo, temos o destino fatal do amor na sociedade midiática, na época em que o desejo é como o trocar de canal na televisão e a oferta é imensa. Existe, mesmo, hoje, tempo para uma história de amor como a de Riobaldo por Diadorim em Grande Sertão Veredas? O construir o outro com mãos de poesia, senti-lo na palavra, querê-lo com os olhos? O flerte já não está na moda, as relações estão velozes demais, os beijos também. Não dá tempo para amar com a ponta dos dedos.
E isso me leva ao tópico da minha tese. Mas, aí já é assunto para outro suspiro.
Tendo que, nessa altura do campeonato e da vida, reler Dom Casmurro, pareceu-me tarefa árdua, mas, foi sempre prazer. Relembrar os detalhes do quadro de Escobar, a pobre esposa, Sancha, tão miúda no olhar narrativo... E também o filho, Ezequiel, que parece, em um só libelo, uma falha, resultado não só de uma mente mentecapta e louca, mas, também, como a própria falha do narrador, que não se vê naquele rosto. Tomando de empréstimo uma ideia que trabalhei há alguns meses a respeito da figura do pai na literatura brasileira - e o desvanecimento desta - como está "fading" podemos dizer que isto já começara lá mesmo na República. No entanto, não como forma do filho virar a mesa contra o pai e, sim, o pai, nesse momento, revendo o seu papel como patriarca. Bentinho, já lá no século XIX, era um exemplo clássico do desmantelamento da sociedade, das mazelas - não físicas e brutais do naturalismo - mas daquelas que, feito erva daninha, vão se alastrando pela alma. Trata-se de um homem que se descobre menos homem, cindido, faltante, sem aquela que ele concebe como a diaba barroca. Ah, os movimentos das escolas....
Mas, este texto nasceu para falar de Guiomar. Outra protagonista machadiana. Não só tive que reler Dom Casmurro como li, também, A mão e a luva. Eu e minhas resistências. Claro que prefiro Esaú e Jacó ou O Alienista. Por isso mesmo que gostei do desafio de ler outra obra de Machado que não as que eu já havia lido. E não é que eu gostei dessa obra? Já havia lido Helena - e não gostado; sobretudo porque li logo depois de Lucíola do Alencar que julgo um livro belíssimo, um dos primeiros livros que me fez chorar, questionar, sair do lugar com desejo de aniquilar a família incompreensiva. Mas, taí, A mão e a luva, com o desenho das personagens, não deixa nada a faltar para outras obras românticas. Aliás, vai além. Ao descrever uma mulher como Guiomar, que ainda moça vê jovens com joias e vestidos passarem - e o segredo mental reside aqui - fazendo planos de chegar a ser como elas, mostra uma manipulação (no texto Machado nomeia de ambição) que parece ser pouco desenhada entre as nossas heróinas românticas. Tão bobinhas, tão frágeis, tão entregues ao ato do amor. Claro que, convenhamos, ainda temos Aurélia de Senhora, outro romance que reli, que também surge com um tom manipulador, mas completamente passional, movida pela raiva de ter sido trocada por um dote, tentando "reformar" o amado. Guiomar, não. É a moça que se senta ao piano, que chama o jovem que a ama, Estevão, de coração mole, dizendo que ele precisa "man up". Aquela que arquiteta, tão perfeitamente, que vai dizer à tia que vai se casar com Jorge, sobrinho da Baronesa, para que a madrinha, ao vê-la desolada ao afirmar isso, simplesmente diga, "Não, Guiomar, vejo que não ama o Jorge. Case-se com o homem que você ama". Guiomar é o não. Ela é tão bem construída que simpatizamos com ela, entendemos os motivos pelos quais ela, finalmente, com seu coração que parece não ser real, não se entrega. Guiomar é o calar. O suspiro, o silêncio. Trabalha ativamente como uma boa menina que sabe o que quer. E, depois, que culpem a Capitu. Que seja posta a espada das incertezas sobre ela. Guiomar, porém, santinha, casa-se casta, linda, e se o faz, é porque tem um homem, Luís Alves, que é, exatamente, seu eu-masculino. O amor, entre eles, chega a ser estranho para o período romântico. Obviamente que a voz narrativa quer dizer que se amam, que se casaram porque são almas parecidas que se buscavam, mas, para mim, leitora do século XXI e que já leu outras obras, o que ressoa é o quanto eles são detalhistas, estrategistas, fazendo daquele amor romântico o jogo que o naturalismo fará questão de desnudar até as entranhas e que o modernismo - salvo alguns casos, como o de Conceição e Vicente de O quinze de Raquel de Queirós - vai mostrar como sendo o interlúdio do troca-troca pós-moderno. Taí um tópico que seria interessante, para fins de entender a evolução da representação do amor e das relações humanas, olhar para determinados pares de personagens em cada período. Se pensarmos em O matador de Patrícia Melo, por exemplo, temos o destino fatal do amor na sociedade midiática, na época em que o desejo é como o trocar de canal na televisão e a oferta é imensa. Existe, mesmo, hoje, tempo para uma história de amor como a de Riobaldo por Diadorim em Grande Sertão Veredas? O construir o outro com mãos de poesia, senti-lo na palavra, querê-lo com os olhos? O flerte já não está na moda, as relações estão velozes demais, os beijos também. Não dá tempo para amar com a ponta dos dedos.
E isso me leva ao tópico da minha tese. Mas, aí já é assunto para outro suspiro.
Wednesday, February 6, 2013
Eu, a leitora. E a prosa em desalinho de Silviano Santiago
Não vou dizer que eu escolhi ler Stella Manhattan porque aí eu já vou entrar na mesma contramão dos pais do Eduardo Costa e Silva. O menino bonito, controverso, que vai se desvendando, passo a passo, ao mesmo tempo que a voz que habita dentro dele, e que é uma esquizofrenia que somos convidados a visitar, vai também se apresentando e temos este ser dúbio: menino e menina. Talvez seja a influência da música da Legião Urbana, "e eu gosto de meninos e meninas". Talvez, sejamos, pois, todos, meninos e meninas. Vai saber.
A narrativa, em si, parecia que não ia conseguir me conquistar. Estava achando muito próxima de mim, também de passagem - nesta viagem que, por não ter terminado ainda, não é viagem, é mudança, transformando, pois, todo o critério de viagem. Mas, aí enveredou por outros caminhos, começou a deixar rastros de segredo e o encanto se fez. O susto, porém, é a indagação, em capítulo perdido que - por estar lendo no Kindle - me fez duvidar que aquilo fosse realidade (tendo que buscar a página no livro de papel para me certificar de que não era uma intervenção do computador) foi encontrar o narrador ali, despido, cabeça na janela feito namoradeira, expondo os processos da criação, em uma atitude brechtiniana, destruindo todas as barreiras, e com o seguinte devaneio/indagação (e não cito. lembro) "o grande problema dos romances é que romance nenhum fala, justamente, das pausas do processo criativo. O romance, em si, ao não preservar isso, é uma mentira". Ahhhhh, o que faz aquele capítulo ali? Pausa do processo criativo? NÃO! Devaneio filosófico, ensaio sobre arte, fetiche e mercadoria. O Santiago mostra as veias do Silviano.
E o livro não fica por aí. Avança pelos desejos femininos, tem uma cena de masturbação na qual pensamos, é isso mesmo ou é sonho ou tô pensando? 50 Tons de Cinza? Que nada. 50 tons de loucura, de mergulho, de sensualidade com embrulho no estômago.
No meio disso tudo, ainda, a solidão intrínseca de quem se vê vivendo um sexexílio, banido da família porque gosta de pessoas. Além do pano de fundo das ditaduras na América Latina, expandindo-se como um câncer, avançando até para os lugares mais distantes através dos informantes e - contra tudo e contra todos - as forças que resistem. Por fim, o professor Aníbal e sua deficiência humana e não física. E Leila - um espasmo no meio da loucura de deslocamentos, de perdas, de suspiros.
E aqui, na última linha, a dedicatória à Viúva Negra. Que não podia deixar de ser mencionada.
Ler é, ou não é, uma esquizofrenia?
A narrativa, em si, parecia que não ia conseguir me conquistar. Estava achando muito próxima de mim, também de passagem - nesta viagem que, por não ter terminado ainda, não é viagem, é mudança, transformando, pois, todo o critério de viagem. Mas, aí enveredou por outros caminhos, começou a deixar rastros de segredo e o encanto se fez. O susto, porém, é a indagação, em capítulo perdido que - por estar lendo no Kindle - me fez duvidar que aquilo fosse realidade (tendo que buscar a página no livro de papel para me certificar de que não era uma intervenção do computador) foi encontrar o narrador ali, despido, cabeça na janela feito namoradeira, expondo os processos da criação, em uma atitude brechtiniana, destruindo todas as barreiras, e com o seguinte devaneio/indagação (e não cito. lembro) "o grande problema dos romances é que romance nenhum fala, justamente, das pausas do processo criativo. O romance, em si, ao não preservar isso, é uma mentira". Ahhhhh, o que faz aquele capítulo ali? Pausa do processo criativo? NÃO! Devaneio filosófico, ensaio sobre arte, fetiche e mercadoria. O Santiago mostra as veias do Silviano.
E o livro não fica por aí. Avança pelos desejos femininos, tem uma cena de masturbação na qual pensamos, é isso mesmo ou é sonho ou tô pensando? 50 Tons de Cinza? Que nada. 50 tons de loucura, de mergulho, de sensualidade com embrulho no estômago.
No meio disso tudo, ainda, a solidão intrínseca de quem se vê vivendo um sexexílio, banido da família porque gosta de pessoas. Além do pano de fundo das ditaduras na América Latina, expandindo-se como um câncer, avançando até para os lugares mais distantes através dos informantes e - contra tudo e contra todos - as forças que resistem. Por fim, o professor Aníbal e sua deficiência humana e não física. E Leila - um espasmo no meio da loucura de deslocamentos, de perdas, de suspiros.
E aqui, na última linha, a dedicatória à Viúva Negra. Que não podia deixar de ser mencionada.
Ler é, ou não é, uma esquizofrenia?
Agora é a vez de Murro em Ponta de Faca
Para ser sincera, acho que ter terminado de ler essa peça do Augusto Boal justamente hoje, fez-me pensar a respeito da minha vida nos últimos tempos de um modo geral. Literatura tem este aspecto muito envolvente e íntimo que é o de nos penetrar como uma espécie de ânsia e nos deixar tontos, embriagados, completamente - no limite - do saber se, de fato estamos lendo ou se é a nossa vida que se apresenta ali. É óbvio que eu não estou em uma situação na qual estou sempre de malas prontas, na qual a única certeza é, pois, a partida. No entanto, os sentimentos de Maria em torno do mundo, a maneira como vai engolindo uma a uma aquelas pílulas enquanto fala com Paulo pelo telefone que, no palco, fica ao lado, mas que é uma distância intransponível, representa, também, um pouco a maneira como eu sinto.
De alguma forma, exilo-me também na minha cápsula de incertezas, no meio da pilha de livros que se amontoa pela casa em todos os recintos e dos quais tenho medo e, tantas vezes, espanto. Sei que, no fundo de mim, quero me afastar de ser como o Doutor da peça. Não quero ser a pessoa que mais tem livros no mundo, quero carregá-los dentro de mim. Quero engoli-los, degluti-los, escrevê-los, ser o simulacro da secretária de Borges do conto lindíssimo que li ontem da Lucia Bettencourt. Sabe que eu nunca tinha imaginado um Borges sexy? Ah, os desconsertos de quem, não raramente, pensa com os sentidos. Impossível não sentir aquela paixão, aquele se perder e se encontrar entre as linhas de Borges e dela, rosqueadas, entrosadas, como corpos nus em um rasante. Texto lindo, lindo, lindo. Fui dormir em êxtase.
Mas, a realidade é o "Murro em Ponto de Faca" do Boal. É o grito que não quer calar e que não calamos e que fica e que chora e que sufocamos com a novela das oito". Por mais que eu ache que eu sou Maria, muito mais que Marga, sei que, no fundo, no fundo, Marga it is. Vazia, oca, em busca de alguém que queira dividir um sonho corporal de dois minutos comigo. E depois dizem que somos livres. Livres é uma ovíssima! Somos todos uns covardes e perdidos e sem amigos.
Maria perdeu um amigo. Os jornais contavam mentiras, muitas mentiras. Ela estava grávida de um defunto. O defunto é o sonho, esse calar que nos sucumbe. De um destino a outro, começando pelo Chile e desembocando em Paris, Boal vai descrevendo nossos receios, nossos trânsitos, até mesmo o desejo de ser Europa na América Latina (e, aqui, com direito à Belle Epoque revisitada).
Talvez eu não faça sentido, mas, até aí, este blog não é para fazer sentido mesmo. É o amigo, o psicólogo para o qual eu me desconstruo em palavras, deglutindo os meus coelhinhos a la Murilo Rubião. Pelo menos este eu sei que vai saber que eu sou como o Reflexos do baile do Callado.
De alguma forma, exilo-me também na minha cápsula de incertezas, no meio da pilha de livros que se amontoa pela casa em todos os recintos e dos quais tenho medo e, tantas vezes, espanto. Sei que, no fundo de mim, quero me afastar de ser como o Doutor da peça. Não quero ser a pessoa que mais tem livros no mundo, quero carregá-los dentro de mim. Quero engoli-los, degluti-los, escrevê-los, ser o simulacro da secretária de Borges do conto lindíssimo que li ontem da Lucia Bettencourt. Sabe que eu nunca tinha imaginado um Borges sexy? Ah, os desconsertos de quem, não raramente, pensa com os sentidos. Impossível não sentir aquela paixão, aquele se perder e se encontrar entre as linhas de Borges e dela, rosqueadas, entrosadas, como corpos nus em um rasante. Texto lindo, lindo, lindo. Fui dormir em êxtase.
Mas, a realidade é o "Murro em Ponto de Faca" do Boal. É o grito que não quer calar e que não calamos e que fica e que chora e que sufocamos com a novela das oito". Por mais que eu ache que eu sou Maria, muito mais que Marga, sei que, no fundo, no fundo, Marga it is. Vazia, oca, em busca de alguém que queira dividir um sonho corporal de dois minutos comigo. E depois dizem que somos livres. Livres é uma ovíssima! Somos todos uns covardes e perdidos e sem amigos.
Maria perdeu um amigo. Os jornais contavam mentiras, muitas mentiras. Ela estava grávida de um defunto. O defunto é o sonho, esse calar que nos sucumbe. De um destino a outro, começando pelo Chile e desembocando em Paris, Boal vai descrevendo nossos receios, nossos trânsitos, até mesmo o desejo de ser Europa na América Latina (e, aqui, com direito à Belle Epoque revisitada).
Talvez eu não faça sentido, mas, até aí, este blog não é para fazer sentido mesmo. É o amigo, o psicólogo para o qual eu me desconstruo em palavras, deglutindo os meus coelhinhos a la Murilo Rubião. Pelo menos este eu sei que vai saber que eu sou como o Reflexos do baile do Callado.
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