Só uma pessoa que conhece pouco a obra do Machado de Assis para achar que Capitu é a sua única mulher com olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Obviamente, acha isso quem só leu Dom Casmurro. No entanto, para quem leu um pouco mais, sabe que sempre há uma mulher muito forte em seus textos. Ok, nem todos. Não era do espírito do Machado a preocupação com os sexos, ele se preocupava, sim, com os desenhos humanos, com os recortes das pessoas, com a construção da personagem. Daí dizer que a galeria de mulheres que ele construiu é exemplar das várias faces e facetas do gênero feminino. Pensemos, para não sair do clichê, na própria Capitu que ganhou vida e que hoje é uma referência para a sedução, para a tentação, além de ser - quase - um sinônimo de manipulação e dissimulação. Desenhada pela voz de Bento, que escreve no momento uma história do passado, perpassada pela caneta bic vermelha apontada diretamente para o coração dilacerado, ciumento e sentindo-se traído, e temos a nossa Desdemona - que seria santa, não fosse o narrador de primeira pessoa - de Otelo do Shakespeare em plena rua do Ouvidor. Capitu, em decorrência de ser narrada e não se narrar, fica sem a voz tão precisa e necessária para a sua defesa, apresenta-se, antes, exposta pelos olhos do amante ferido. Por onde andam, assim, os narradores de terceira pessoa machadianos? Por que a predileção pela primeira pessoa, se não como forma, ainda, de preservar a ambiguidade humana, manter os nossos recônditos esconderijos e, ao mesmo tempo, desvendá-los pela voz do outro que nos analisa? Ah, o Machado...
Tendo que, nessa altura do campeonato e da vida, reler Dom Casmurro, pareceu-me tarefa árdua, mas, foi sempre prazer. Relembrar os detalhes do quadro de Escobar, a pobre esposa, Sancha, tão miúda no olhar narrativo... E também o filho, Ezequiel, que parece, em um só libelo, uma falha, resultado não só de uma mente mentecapta e louca, mas, também, como a própria falha do narrador, que não se vê naquele rosto. Tomando de empréstimo uma ideia que trabalhei há alguns meses a respeito da figura do pai na literatura brasileira - e o desvanecimento desta - como está "fading" podemos dizer que isto já começara lá mesmo na República. No entanto, não como forma do filho virar a mesa contra o pai e, sim, o pai, nesse momento, revendo o seu papel como patriarca. Bentinho, já lá no século XIX, era um exemplo clássico do desmantelamento da sociedade, das mazelas - não físicas e brutais do naturalismo - mas daquelas que, feito erva daninha, vão se alastrando pela alma. Trata-se de um homem que se descobre menos homem, cindido, faltante, sem aquela que ele concebe como a diaba barroca. Ah, os movimentos das escolas....
Mas, este texto nasceu para falar de Guiomar. Outra protagonista machadiana. Não só tive que reler Dom Casmurro como li, também, A mão e a luva. Eu e minhas resistências. Claro que prefiro Esaú e Jacó ou O Alienista. Por isso mesmo que gostei do desafio de ler outra obra de Machado que não as que eu já havia lido. E não é que eu gostei dessa obra? Já havia lido Helena - e não gostado; sobretudo porque li logo depois de Lucíola do Alencar que julgo um livro belíssimo, um dos primeiros livros que me fez chorar, questionar, sair do lugar com desejo de aniquilar a família incompreensiva. Mas, taí, A mão e a luva, com o desenho das personagens, não deixa nada a faltar para outras obras românticas. Aliás, vai além. Ao descrever uma mulher como Guiomar, que ainda moça vê jovens com joias e vestidos passarem - e o segredo mental reside aqui - fazendo planos de chegar a ser como elas, mostra uma manipulação (no texto Machado nomeia de ambição) que parece ser pouco desenhada entre as nossas heróinas românticas. Tão bobinhas, tão frágeis, tão entregues ao ato do amor. Claro que, convenhamos, ainda temos Aurélia de Senhora, outro romance que reli, que também surge com um tom manipulador, mas completamente passional, movida pela raiva de ter sido trocada por um dote, tentando "reformar" o amado. Guiomar, não. É a moça que se senta ao piano, que chama o jovem que a ama, Estevão, de coração mole, dizendo que ele precisa "man up". Aquela que arquiteta, tão perfeitamente, que vai dizer à tia que vai se casar com Jorge, sobrinho da Baronesa, para que a madrinha, ao vê-la desolada ao afirmar isso, simplesmente diga, "Não, Guiomar, vejo que não ama o Jorge. Case-se com o homem que você ama". Guiomar é o não. Ela é tão bem construída que simpatizamos com ela, entendemos os motivos pelos quais ela, finalmente, com seu coração que parece não ser real, não se entrega. Guiomar é o calar. O suspiro, o silêncio. Trabalha ativamente como uma boa menina que sabe o que quer. E, depois, que culpem a Capitu. Que seja posta a espada das incertezas sobre ela. Guiomar, porém, santinha, casa-se casta, linda, e se o faz, é porque tem um homem, Luís Alves, que é, exatamente, seu eu-masculino. O amor, entre eles, chega a ser estranho para o período romântico. Obviamente que a voz narrativa quer dizer que se amam, que se casaram porque são almas parecidas que se buscavam, mas, para mim, leitora do século XXI e que já leu outras obras, o que ressoa é o quanto eles são detalhistas, estrategistas, fazendo daquele amor romântico o jogo que o naturalismo fará questão de desnudar até as entranhas e que o modernismo - salvo alguns casos, como o de Conceição e Vicente de O quinze de Raquel de Queirós - vai mostrar como sendo o interlúdio do troca-troca pós-moderno. Taí um tópico que seria interessante, para fins de entender a evolução da representação do amor e das relações humanas, olhar para determinados pares de personagens em cada período. Se pensarmos em O matador de Patrícia Melo, por exemplo, temos o destino fatal do amor na sociedade midiática, na época em que o desejo é como o trocar de canal na televisão e a oferta é imensa. Existe, mesmo, hoje, tempo para uma história de amor como a de Riobaldo por Diadorim em Grande Sertão Veredas? O construir o outro com mãos de poesia, senti-lo na palavra, querê-lo com os olhos? O flerte já não está na moda, as relações estão velozes demais, os beijos também. Não dá tempo para amar com a ponta dos dedos.
E isso me leva ao tópico da minha tese. Mas, aí já é assunto para outro suspiro.
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