Wednesday, February 6, 2013

Agora é a vez de Murro em Ponta de Faca

Para ser sincera, acho que ter terminado de ler essa peça do Augusto Boal justamente hoje, fez-me pensar a respeito da minha vida nos últimos tempos de um modo geral. Literatura tem este aspecto muito envolvente e íntimo que é o de nos penetrar como uma espécie de ânsia e nos deixar tontos, embriagados, completamente - no limite - do saber se, de fato estamos lendo ou se é a nossa vida que se apresenta ali. É óbvio que eu não estou em uma situação na qual estou sempre de malas prontas, na qual a única certeza é, pois, a partida. No entanto, os sentimentos de Maria em torno do mundo, a maneira como vai engolindo uma a uma aquelas pílulas enquanto fala com Paulo pelo telefone que, no palco, fica ao lado, mas que é uma distância intransponível, representa, também, um pouco a maneira como eu sinto.
De alguma forma, exilo-me também na minha cápsula de incertezas, no meio da pilha de livros que se amontoa pela casa em todos os recintos e dos quais tenho medo e, tantas vezes, espanto. Sei que, no fundo de mim, quero me afastar de ser como o Doutor da peça. Não quero ser a pessoa que mais tem livros no mundo, quero carregá-los dentro de mim. Quero engoli-los, degluti-los, escrevê-los, ser o simulacro da secretária de Borges do conto lindíssimo que li ontem da Lucia Bettencourt. Sabe que eu nunca tinha imaginado um Borges sexy? Ah, os desconsertos de quem, não raramente, pensa com os sentidos. Impossível não sentir aquela paixão, aquele se perder e se encontrar entre as linhas de Borges e dela, rosqueadas, entrosadas, como corpos nus em um rasante. Texto lindo, lindo, lindo. Fui dormir em êxtase.
Mas, a realidade é o "Murro em Ponto de Faca" do Boal. É o grito que não quer calar e que não calamos e que fica e que chora e que sufocamos com a novela das oito". Por mais que eu ache que eu sou Maria, muito mais que Marga, sei que, no fundo, no fundo, Marga it is. Vazia, oca, em busca de alguém que queira dividir um sonho corporal de dois minutos comigo. E depois dizem que somos livres. Livres é uma ovíssima! Somos todos uns covardes e perdidos e sem amigos.
Maria perdeu um amigo. Os jornais contavam mentiras, muitas mentiras. Ela estava grávida de um defunto. O defunto é o sonho, esse calar que nos sucumbe. De um destino a outro, começando pelo Chile e desembocando em Paris, Boal vai descrevendo nossos receios, nossos trânsitos, até mesmo o desejo de ser Europa na América Latina (e, aqui, com direito à Belle Epoque revisitada).
Talvez eu não faça sentido, mas, até aí, este blog não é para fazer sentido mesmo. É o amigo, o psicólogo para o qual eu me desconstruo em palavras, deglutindo os meus coelhinhos a la Murilo Rubião. Pelo menos este eu sei que vai saber que eu sou como o Reflexos do baile do Callado.

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