Não vou dizer que eu escolhi ler Stella Manhattan porque aí eu já vou entrar na mesma contramão dos pais do Eduardo Costa e Silva. O menino bonito, controverso, que vai se desvendando, passo a passo, ao mesmo tempo que a voz que habita dentro dele, e que é uma esquizofrenia que somos convidados a visitar, vai também se apresentando e temos este ser dúbio: menino e menina. Talvez seja a influência da música da Legião Urbana, "e eu gosto de meninos e meninas". Talvez, sejamos, pois, todos, meninos e meninas. Vai saber.
A narrativa, em si, parecia que não ia conseguir me conquistar. Estava achando muito próxima de mim, também de passagem - nesta viagem que, por não ter terminado ainda, não é viagem, é mudança, transformando, pois, todo o critério de viagem. Mas, aí enveredou por outros caminhos, começou a deixar rastros de segredo e o encanto se fez. O susto, porém, é a indagação, em capítulo perdido que - por estar lendo no Kindle - me fez duvidar que aquilo fosse realidade (tendo que buscar a página no livro de papel para me certificar de que não era uma intervenção do computador) foi encontrar o narrador ali, despido, cabeça na janela feito namoradeira, expondo os processos da criação, em uma atitude brechtiniana, destruindo todas as barreiras, e com o seguinte devaneio/indagação (e não cito. lembro) "o grande problema dos romances é que romance nenhum fala, justamente, das pausas do processo criativo. O romance, em si, ao não preservar isso, é uma mentira". Ahhhhh, o que faz aquele capítulo ali? Pausa do processo criativo? NÃO! Devaneio filosófico, ensaio sobre arte, fetiche e mercadoria. O Santiago mostra as veias do Silviano.
E o livro não fica por aí. Avança pelos desejos femininos, tem uma cena de masturbação na qual pensamos, é isso mesmo ou é sonho ou tô pensando? 50 Tons de Cinza? Que nada. 50 tons de loucura, de mergulho, de sensualidade com embrulho no estômago.
No meio disso tudo, ainda, a solidão intrínseca de quem se vê vivendo um sexexílio, banido da família porque gosta de pessoas. Além do pano de fundo das ditaduras na América Latina, expandindo-se como um câncer, avançando até para os lugares mais distantes através dos informantes e - contra tudo e contra todos - as forças que resistem. Por fim, o professor Aníbal e sua deficiência humana e não física. E Leila - um espasmo no meio da loucura de deslocamentos, de perdas, de suspiros.
E aqui, na última linha, a dedicatória à Viúva Negra. Que não podia deixar de ser mencionada.
Ler é, ou não é, uma esquizofrenia?
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